Experiências. Mídia e cultura infantil no cotidiano da escola

Marcia Covelo Harmbach

“A criança também é educada pela mídia, principalmente pela televisão. Aprende a informar-se, conhecer os outros, o mundo, a si mesmo, a sentir, fantasiar, a relaxar, vendo, ouvindo, tocando as pessoas na tela, que lhe mostram como viver, ser feliz e infeliz, amar e odiar. A relação com a mídia é prazerosa – ninguém obriga – é feita através da sedução, da emoção, da exploração sensorial, da narrativa – aprendemos vendo as estórias dos outros e as estórias que os outros nos contam.” (Morin, 2007, p.166).

É inegável a influência da mídia na vida das crianças, quase todos possuem TV, internet que transformaram a cultura das crianças, direcionando para o consumo, banalizando a violência, interferindo na saúde, no comportamento, na forma de resolver conflitos.

È de suma importância a reflexão sobre os mecanismos usados pela mídia, os diferentes processos de interação com a infância, a definição crítica do papel da escola como instituição que detém o poder da validação.

“Se o consumo é realizado através do desejo, o infantil então é de maior afetividade, porquanto a publicidade que está diretamente relacionada com o consumo atua de forma que a criança acredite numa realidade que não a verdadeira e passe a consumir para se tornar uma pessoa ‘“ ideal “’ dita pela publicidade”. (Instituto Alana, 2009)

Estudos como do Instituto Alana mostram que as crianças passam a desejar os produtos anunciados, sejam brinquedos, alimentos, solicitando aos pais numa rede de conflitos e frustrações, percebido no cotidiano da escola.

Hoje vivemos uma sociedade de consumidores, cujo habitat natural é o mercado. Nas crianças, consumidoras em potencial, incentiva-se o cultivo do fascínio e impulso compulsivo por mercadorias. Através do marketing, gera-se nas crianças um estado de permanente insatisfação, incentivando o desejo do novo e redefinindo o anteriormente consumido como lixo inútil. (Friedmann, 2013)

Ninguém nasce consumista. O consumismo é uma ideologia, um hábito mental forjado que se tornou uma das características culturais mais marcantes da sociedade atual. Queremos contribuir com essa história?

Desde 2012, a EMEI Dona Leopoldina vem discutindo com educadores, crianças,famílias o Projeto Político-Pedagógico: Viveiros de Infância, que visa resgatar a cultura da infância e fazer da escola um lugar de encontro com a natureza e as pessoas, e tem como um dos eixos a Educação Ambiental.

Após reflexões críticas, ressignificamos os fazeres, retiramos as datas comemorativas ligadas ao comércio e religião, pois entendemos a Escola como um espaço laico e de contraposição à cultura do consumo. Discutimos o que comemorar, priorizando a criança. Elencamos o Dia “Quem cuida de mim” com as diferentes famílias, a finalidade é estarmos juntos, trocando afetos e não objetos materiais, como a mídia acena para dias de mães e pais. A Festa da Cultura Brasileira prioriza a autoria das crianças, as diversas culturas, com brincadeiras sem “prendas”, apenas pelo prazer de brincar, abordamos questões ambientais, sociais, artísticas. As músicas e brincadeiras são escolhidas criteriosamente, sem o apelo da “moda”. Comemoramos os aniversários com bolo feito a muitas mãos, o presente é um teatro criado e protagonizado por crianças e adultos, é a celebração da vida. No final do ano realizamos o Rito de Passagem, com ideias e participação de todos, relembramos as conquistas, os laços que construímos e celebramos com uma grande mesa, onde comer e beber tem significado, celebramos um novo ciclo.

Repensamos nossos espaços, a brincadeira com a natureza é de grande impacto na vida das crianças, elas brincam com o que têm nas mãos e na cabeça. Por diversas imagens a mídia fornece conteúdos, as crianças usam personagens como suporte, os conteúdos são integrados na lógica da brincadeira, na reprodução das cenas cotidianas. Oferecemos o contraponto com imagens da natureza, pois muitas crianças perderam o espaço da rua, do quintal, e muitas vezes a escola é um dos únicos lugares em que podem ouvir um passarinho, brincar com barro, presenciar o nascimento ou a morte de um bichinho, de uma planta.

Crianças projetam pelas imagens do inconsciente, pelas experiências não verbais, temos que ser criteriosos no que oferecemos a elas.El niño que no tenía derecho a voz en el siglo pasado, hoy es considerado un consumidor potencial. Es importante entender el punto de vista del niño, no para hacer su voluntad, sino para entender los contenidos y adecuar las actividades hacia el espacio del niño.
A criança que não tinha direito a voz no século passado, hoje é considerada um consumidor em potencial. É importante entender o ponto de vista da criança, não para fazer a vontade, mas para entender os conteúdos, adequar as atividades para o lugar da criança.

Como a escola pode ser esse lugar, que fomenta o desejo de criar, observar que as cores são de todos, que meninos e meninas podem brincar do que quiser e vestir rosa ou azul de acordo com sua preferência e não do que lhe ditam?

Quais as implicações de ter um canto de bonecas, magras, loiras com apetrechos cor de rosa? O que estamos validando como concepção de gênero, de mundo? Se oferecemos somente bonecas brancas, que não representam nossa diversidade racial, quais referências estamos ajudando a construir?

A mídia cria uma ideia de sociedade específica para este ou aquele, onde ter é mais importante que ser, gerando a necessidade de ter algo para ser feliz, de que todos tenham determinado objeto para fazer parte de um grupo. Desde muito pequenas as crianças captam essa percepção.

È preciso pensar sobre o que legitimamos na escola.

O projeto de Educação Ambiental aponta para o consumo consciente cotidianamente: no cuidado com os materiais, no não uso de descartáveis, EVA e isopor devido ao seu tempo de decomposição.

Na utilização de refugos de gráfica, sementes para produções de Arte, assim como os objetos quebrados são transformados em obras artísticas. Plantamos o que comemos, fazemos compostagem, reutilizamos água da chuva, realizamos feira de troca, pois o que é velho para um é novo para outro.

Vivemos em tempos líquidos, nada foi feito para durar, as formas de vida contemporânea, se assemelham pela vulnerabilidade e fluidez, incapazes de manter a mesma identidade por muito tempo, o que reforça um estado temporário e frágil das relações sociais e dos laços humanos. (Bauman, 2007)

EMEI Leopoldina, São Paulo – Brasil

Na sociedade contemporânea somos impulsionados pelo desejo, um querer constante, as crianças são expostas a esse pensamento e a escola pode apresentar outro tipo de relação com as coisas, as pessoas e construir argumentos diferenciados.

A infância deve ser preservada como um tempo para a formação de cidadania, de indivíduos conscientes, com qualidade de vida não como conceito, mas como prática vivida.

Tornar a escola um lugar assim é nossa tarefa. Legitimar os diferentes saberes, desnaturalizar práticas escolares e consumistas, apresentar outras possibilidades. Mostrar de onde vem e para onde vão as coisas ecomo tecero ciclo da vida sem desfiar os fios da natureza. Reconhecer a finitude de nossos recursos, encontrar outros caminhos para transformar o pedaço de mundo que nos cabe.

Fazer ecoar as vozes infantis pela sustentabilidade da casa, da escola, do bairro, da cidade, do país, do planeta.

Bibliografía
Bauman, Z. Vida Líquida. Editorial Paidos Ibérica, 2010.
Friedmann, Adriana. Linguagens e Culturas Infantis. São Paulo: Cortez, 2013.
Morin, E. El método 4: las ideas –hábitat, vida, costumbres, organización. Editorial Cátedra, 2006.Desemparedamento da Infância. A escola como lugar de encontro com a natureza. Criança e Natureza. São Paulo: Instituto Alana, 2018. www.institutoalana.org.br
Programa infancia y consumo. Instituto Alana.
www.criancaeconsumo.org.br

Marcia Covelo Harmbach
Diretora da EMEI Dona Leopoldina
Formadora de professoras.

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