Reflexões Pedagógicas. Tecnologias e subjetividades em formação

Ana Laura Martin
Ximena López Germino
Ma. Cecilia Rodríguez da Silveira
Gabriela Triñanes

Neste artigo pretendemos refletir sobre um tema comum hoje para todos nós que estamos próximos da primeira infância (mães, pais, cuidadores, educadoras, profissionais de saúde): a presença da tecnologia no cotidiano do lar, as formas pelas quais os dispositivos tecnológicos estão presentes na vida do bebê, meninas e meninos pequenos e suas famílias, e seus possíveis efeitos no desenvolvimento.

É inegável que a realidade geralmente nos confronta com uma forte presença de dispositivos tecnológicos na vida cotidiana. O que faz parte da vida cotidiana e é importante para os pais, dificilmente poderia não fazer parte da vida do bebê desde suas primeiras experiências, já que ele nasce em um ambiente em que a tecnologia é mais um elemento do entorno.

A medida em que a tecnologia ocupa um lugar significativo nas relações interpessoais, é inevitável nos questionarmos sobre seus efeitos na primeira infância, em tempos de constituição da subjetividade.

O contexto de trabalho em que surgem nossas perguntas e reflexões é o trabalho clínico com pacientes e em diferentes instituições de educação infantil com crianças de 0 a 5 anos. Por sua vez, também trabalhamos em oficinas de formação com equipes interdisciplinares em várias instituições. Trabalhamos, também, no tratamento psicanalítico com meninos e meninas de uma maneira particular, atentendo também a família em processos de consulta.

Nosso papel nas equipes às quais pertencemos na educação infantil abrange principalmente o nível de prevenção e promoção da saúde, cuidando do acompanhamento do desenvolvimento das crianças, do acompanhamento da tarefa do educador e da família.

Nessa função de acompanhar o desenvolvimento de meninas e meninos, as funções educativas e de cuidado dos educadores e da família, temos observado que, por meio de diferentes modalidades, o uso de dispositivos tecnológicos em diversas situações tem se tornado cada vez mais presentes na dinâmica familiar.

Nas instituições educativas em que trabalhamos, seu uso não foi incorporado de acordo com um posicionamento pedagógico que promova a atividade lúdica como centro de aprendizagens significativas. Seu uso foi integrado apenas em ocasiões muito específicas, por exemplo, compartilhando um filme ou um evento cultural que convoca a todos nós, como a Copa do Mundo de Futebol.

Em diferentes encontros com adultos, seja em entrevistas ou oficinas, foi ficando notório que a tecnologia estava cada vez mais presente no relato de situações da vida cotidiana. Começamos a prestar atençãono lugar que este uso ocupa.

Os diferentes membros da equipe observaram em muitas ocasiões, durante momentos significativos, como a chegada à escola e a despedida em cada dia, que o celular é oferecido pelo adulto e / ou demandado pela criança. A despedida ou o reencontro costumam provocar angústia tanto nos pais e nas mães, como nas meninas e nos meninos. Às vezes, alguns membros da família preferem sair sem serem vistos, evitando um momento crítico de choro ou reclamação, e outros oferecem uma compensação (um presentinho ou um doce). Às vezes acontece que naquele momento o celular é entregue como um entretenimento imediato, como um elemento que ajuda a acalmar.

Os familiares relatam o uso dos dispositivos em múltiplas situações da vida cotidiana, como forma de proporcionar tranquilidade e entretenimento, quando exigem que meninas e meninos permaneçam quietos, para desenvolver outra atividad e ou sempre que tiverem que esperar. Em muitas ocasiões, a tecnologia é oferecida por adultos nesses momentos e com pouca interação comas crianças. Também é introduzida para substituir a ausência, para preencher lacunas nos momentos de separação ou para evitar conflitos e angústias.

Encontramos dificuldades, tanto no mundo adulto quanto no mundo infantil, para enfrentar momentos de espera, frustração, vazio e tédio que parecem levar à onipresença de dispositivos tecnológicos. Essas observações têm nos levado a nos questionar sobre o posicionamento das figuras parentais frente às intensas demandas ou transbordamentos impulsivos dos pequenos, bem como sobre o tipo de objeto que os dispositivos tecnológicos tornam-se de acordo com o uso que se faz deles.

Estamos interessados em refletir sobre o uso precoce e intenso dessa tecnologia, como uma das muitas situações em que o bebê ou a criança ficam expostos a estímulos excessivos que eles não podem processar sozinhos ou selecionar. Parece que a excitação e a calma podem ser unidas e intensamente provocadas. O mundo da imagem e do som é tão atraente que às vezes preenche e acalma, suprime demandas, absorve preocupações e interfere nos movimentos e explorações dos bebês no espaço, o que inevitavelmente requer o contato e o apoio de outros.

Por sua vez, eles não fornecem um retorno do que o bebê produz, não decodificam seus afetos e sentimentos. Eles fornecem conteúdos, estímulos sensoriais, histórias já contadas (geralmente altamente estimulantes e vertiginosas), mas não dão uma resposta que se adeque à suareação. Por isso, é necessária acompanhia de outra pessoa, crianças mais velha sou adultos que complementem as reações emocionais das crianças com sua capacidade de dar sentido.

E claro que, juntos, crianças e adultos podem desfrutar de atividades lúdicas, como ouvir música, compartilha rani mações infantis, ler e brincar com literatura infantil digital interativa, etc., tendo a tecnologia como suporte. Nessas situações, como em outras, a contribuição da interação com os outros promove um enriquecimento, na medida em que a criança não é deixada ó frente ao virtual. Na atividade compartilhada, o que pode ser angustiante ou excessivo provavelmente será metabolizado com a contribuição da interação. Por outro lado, quando um menino ou menina é deixa dos o zinho na frente da tela, ele pode ficar desprotegido. Como um breve exemplo, vamos pensar no “Momo”1 e na preocupação que isso causou recentemente. Ainda que as crianças não tendam a imitar linearmente o que veem, e os monstros geralmente estão presentes em histórias pelas quais as crianças metabolizam os medos, a presença de adultos para discriminar o que pode afetara criança e seu entendimento constitui a situação mais adequada para o processamento do que as crianças veem na tela.

A proposta de moderar o uso de dispositivos tecnológicos é uma aspiração dificilmente alcançada em uma época em que todo o consumo foi exacerbado. A família geralmente sente que não há razão para retirá-los, juntamente com a crença típica de que é importante para a sua aprendizagem. Além disso, a criança parece especialmente “preparada” para lidar comas tecnologias e demonstra interesse.

De acordo com o neuropediatra uruguaio A. Cerisola (2017), “devido à sua atenção, memória e habilidade simbólica imaturas, bebês e crianças pequenas não podem aprender com a mídia digital tradicional o que aprendem na interação com seus cuidadores e têm dificuldades para transferir o conhecimento para sua experiência tridimensional. É importante considerar que a capacidade de interação das telas táteis dos meios tecnológicos é limitada em comparação com a aprendizagem que surge da interação e com o seu ambiente real”2.

Em que mundo a criança vive?
Parece inevitável fazer considerações sobre o impacto da presença da tecnologia em nossa constituição como sujeitos, com o ambiente em que crescemos. Estamos imersos na mesma realidade que tentamos processar e entender, de modo que nossa compreensão será necessariamente parcial nesse momento. Para perceber os efeitos das mudanças sociais na subjetividade, é necessário tempo histórico.

O impacto da tecnologia se dá em um contexto de transformação das narrativas que organizama sociedade. O filósofo francês Michel Serres (2012) aponta que as sociedades ocidentais viveram duas grandes revoluções: a passagem do oral para o escrito, e depois, o surgimento da imprensa. Ele afirma que atualmente vivemos uma terceira revolução a partir do surgimento de novas tecnologias. Este autor chama “Pequeno Polegar” a um novo ser humano cujas mensagens brotam de seus polegares com grande maestria.

Atualmente, a vertigem, a incerteza e o efêmero fazem parte da vida. A eficácia no uso do tempo como categoria que marca um modo de vida centrado no presente, a ideia de sucesso atrelada a viver o presente centrado no pra zere a realização pessoal como máxima a aspirar, nos levam a reformular as ideias de tempo, espaço, corpo e subjetividade, entre outras. Pais e mães são muito exigidos neste contexto, o que muitas vezes faz com que apelar para a tecnologia seja uma poio momentâneo, que também pode ser benéfico para a criança, dependendo de como a tecnologia é usada, quanto e em que condições.

A tentativa de evitar o tédio conjugada com a ideia de que nada deveria ser perdido nos coloca diante de um novo sujeito que busca permanecer jovem e a não se limitar aos limites.

O íntimo e o privado mudaram substancialmente. Basta buscar no Google sobre qualquer coisa desconhecida, para ter algumas informações e imagens. As redes sociais implicam uma exposição em uma nova área de confluência e uma curta distância entre público e privado.

A informação pode conte rum paradoxo, pequenos dados inúteis e supérfluos povoam a comunicação virtual e a exposição do íntimo de várias maneiras é utilizada por sujeitos de todas as idades. Segundo a antropóloga argentina P. Sibilia3, o diário intimista teria sido substituído por um diário “efêmero”, no qual as redes apóiam selfies, blogs pessoais para serem vistos ao infinito, no que considera uma exacerbação do culto a si mesmo. Muitas pessoas hoje têm uma espécie de segunda vida em ambientes digitais, que pode ser integrada em situações naturais, por exemplo, na adolescência, mas também pode envolver aspectos arriscados.

O ócio, a espera e otédio.

Em relação ao valor da imagem no mundo de hoje, parece não haver tempo ou espaço que não esteja saturado de imagens. Como exemplo, em qualquer sala de espera, encontrou telas. Quase todo o conteúdo que precisamos comunicar por escrito (especialmente se é algo a ser divulgado) deve ser considerado em relação às imagens, para que seja assimilado pelos destinatários e se dê atenção a ele. … “Neste novo contexto, além de se tornarem mais” interativos”, as pessoas estão se tornando “mais visuais do que verbais”.

Os tempos de espera são geralmente habitados por imagens virtuais. Parece que crianças e adultos acham difícil valorizar e tolerar momentos de espera e tédio. A tolerância à espera está indissoluvelmente ligada à aceitação de possíveis frustrações e à aquisição progressiva do controle de impulsos. Nesse contexto, o uso de tecnologia, se for excessiva, pode ser um fator que não contribui para o desenvolvimento de certos recursos na criança.

V. Guerra, psicanalista uruguaio, afirma:…
“Um acriança que tem essas características, de grande inquietude e impulsividade, melhora quando pode esperar. Porque a tolerância da espera implica a queda da experiência narcisista, de que “o mundo tem que ser como eu quero e no tempo que eu quero”. E depois, a criança estará brincando com os outros, ou participando na escola, interagindo com amigos que têm momentos diferentes do seu e terá que negociar, adaptar-se e poder esperar no sentido de um processo. Em suma, a tolerância à espera se correlaciona com a tolerância da alteridade”4.

Percebemos uma certa contradição entre a preocupação reiterada que as famílias têm com as dificuldades da criança para processar frustrações, a sensação de que elasse aborrecem facilmente e o fato de que a tecnologia é oferecida para se obter calma e diversão. Nesse contexto, a leitura em sempre é valorizada como uma experiência artística e estética, que também entretém, mas é procurada para resolver problemas, como se fosse uma solução mágica voltada para “administrar emoções”. Parece que o livro algumas vezes foi projetado para um propósito educacional específico, em oposição a outras formas de entretenimento relacionadas ao lazer digital.5 A aceitação bem de uma proposta generalizada de “gerenciamento de emoções” é um tópico interessante. Parece que está ganhando terreno uma aspiração de transmitir à criança habilidades de “gerenciamento emocional” que simplificam o complexo e implicam uma auto-regularão precisa ali onde emerge ma ambivalência e os conflitos que exigem companhia afetiva.

Usos e efeitos da tecnologia
O uso da tecnologia com seus avanços vertiginosos pode evocar fortes adesões ou rejeições.

Em relação ao uso de dispositivos tecnológicos, a Sociedade Argentina de Pediatria, bem como outras sociedades científicas6, recomenda:

• Nada de tela antes de 18 meses. Exceto comunicação com a família ou amigos.

• Entre 18 e 24 meses, conteúdos de alta qualidade, juntamente com a presença da família, dando sentido ao que estão vendo.

• Entre 2 e 5 anos, conteúdo de alta qualidade (não mais de uma hora).

• A partir dos 6 anos: equilíbrio e bom senso.

A advertência da comunidade médica sobre a importância da não exposição de crianças pequenas a determinados dispositivos tecnológicos é geralmente desconhecida e, quando se sabe, costuma ser vivenciada como uma “missão impossível”, que poderia estar ligada à naturalização do fenômeno, ao uso diário (e permanente) generalizado. Parece naturalizar o que é parte do habitual.

A família relata sentir uma demanda excessiva das crianças, que anda de mãos dadas coma dificuldade em introduzir a espera e a possibilidade de se frustrar. A criança requer que as pessoas de referência em prestem sua capacidade de contenção e apoio, de modo a não ficarem sozinhos diante dos impulsos e desejos que atravessam, sem o apoio necessário para processá-los.

As crianças pequenas parecem preparadas para lidar com novas formas de comunicação por meio de uma capacidade conectiva que não requer certas condições prévias. As letras e o teclado não são essenciais, bastamos ícones.

Surgem questões sobre os efeitos da tecnologia no desenvolvimento da criança pequena. Perguntas complexas que podem não ter uma resposta ainda, na medida em que múltiplasvariáveis convergem.

Nas crianças para quem o uso de dispositivos tecnológicos é muito intenso, os efeitos podem ser observados no nível da linguagem. Às vezes, algumas crianças usam expressões não características do ambiente cultural próximo, típicas da chamada “linguagem da televisão”.

S. Tisseron, psicanalista francês, descreve os efeitos da imagem que não responde ao sorriso da criança. Frente a um adulto que sorri para ele, o bebê responde sentindo que, por sua vez, seu sorriso gera um efeito sobre o adulto. Uma espiral interativa é gerada. Por outro lado, se o bebê sorri diante de um adulto na tela, a resposta é interrompida, “o bebê está numa situação de estar e, ao mesmo tempo, não de estar com o outro e internaliza as relações em eco constantemente abortadas, ou seja, sem se mexer e com os olhos fixos na tela, a criança aprende a instabilidade”.7

Em algumas crianças observamos uma inquietação excessiva, expressões marcantes de ansiedade, descarga corporal intensa e desdobramento motor. Quando isto ocorre no contexto de uma estimulação excessiva, pode acontecer, também, que seja acompanhadas por uma tendência a movimentos permanentes, dificuldades em brincar em espaços fechados e relaxar (especialmente na hora de dormir) e, em algumas situações, o desenvolvimento do jogo simbólico espontâneo não surge – mesmo que a capacidade simbólica de desenvolvê-lo exista.

Não pensamos que essas situações respondam exclusivamente à forte exposição a dispositivos tecnológicos, mas que são fenômenos multicausais ligados à possibilidade de processamento e significado com outro, simultaneamente ou a posteriori.

Nesse sentido, adotamos as contribuições de V. Guerra (2007): “E se o mundo atual, com suas vicissitudes iconoclastas e pós-modernas de renovação, implica a presença de um chamado à multiplicidade, há um elemento que considero invariante fundamental: a presença do outro, a absoluta necessidade da presença e contribuição do outro humano na constituição do ser humano”.

O processamento do que é vivido requer o encontro com outros significativos que, por meio da empatia, da conexão afetiva e do reconhecimento que os outros devolvem à criança, ajudam a metabolizar as experiências, promovendo o desenvolvimento da subjetividade e facilitando o processo de integração.

Questionamos se amida tecnológica pode atuar como “parceira”. A tecnologia pode dar uma contribuição significativa necedades? O que acontece quando um certo uso desses dispositivos contribui para a desconexão com o desconforto, como fracassos do outro e / ou sua falta, acalmam “magicamente” e evitam o desapontamento?

1. Jogo realizado via Internet e Whatsapp que se popularizou em 2018 e pode ter causado a morte de uma adolescente na Argentina.
2. Cerisola, A. (2017), p. 127.
3. Sibilia, P. (2013), p. 48.
4. Guerra, V. (2003)
5. Garralón, A. El monstruo de colores se equivoca. O la insoportable idea de gestionar las emociones con libros para niños,http://anatarambana.blogspot.com/2018/09/el-monstruo-de-colores-se-equivoca-o-la.html?m=1
6. Subcomisión de Tecnologías de Información y Comunicación. Bebés, niños, adolescentes y pantallas: ¿qué hay de nuevo? Arch Argent Pediatr 2017;115(4):404-406.
7.  Tisseron S. (2008).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Cerisola, A. (2017). Impacto negativo de los medios tecnológicos en el desarrollo infantil. Recuperado en: http://docs.bvsalud.org/biblioref/2017/08/848347/126-131.pdf
Guerra, V. (2003) Fallas en la simbolización en relación a la estructuración psíquica (El proceso de simbolización desde una perspectiva intersubjetiva). En Cuerpo, Lenguaje, Simbolización. Conferencias. Asociación Uruguaya de Psicomotricidad.
——- (2007) En Cultura de la imagen y subjetividad. Mesa “Niños”. Jornada A.U.D.E.P. P
Recuperado de http://www.aupcv.org.uy/ckfinder/userfiles/files/AUDEPP%20CULTURA%20DE%20LA%20IMAGEN%20VIctor%20Guerra.doc
– Tisseron S. (2008). Les dangers de la télépour les bébés.Bruselas: Yapaka.be
– Serres, M. (2012). Pulgarcita. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica
– Sibilia, P. (2008 ) La intimidad como espectáculo. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica


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