Cultura e expressão. Literatura infantil e estereótipos sociais, qual a relação entre eles?

Para a Unesco, a primeira infância é o período de 0 a 8 anos, tempo em que para a ciência o cérebro infantil se desenvolve de forma proeminente, são lançadas as bases para delinear capacidades afetivas e intelectuais em meio à diversidade de contextos nos quais se pode interagir. Nesse sentido, a promoção da igualdade de gênero deve estar na pauta da formação escolar para garantir uma cultura democrática? A leitura de textos nos primeiros anos contribuirá para a construção de padrões e modelos culturais que justifiquem certas formas de agir e até mesmo os legitimem para sociedade, levando em consideração o gênero? É muito provável que para a maioria as respostas “caíam de maduras” frente às políticas educacionais que os Estados têm reforçado na última década com relação à igualdade de gênero. A seguir, algumas reflexões que emergem de muitos anos de acompanhamento de professores/as em meu país, da revisão e análise dos planos de leitura das editoras mais populares a partir de critérios a que cheguei tendo como referência o Currículo Nacional da Educação Básica (CNEB, 2016).

Cada país levanta suas diretrizes, suas normas nas diversas áreas de interesse, mas também na busca pela formação de sociedades que viabilizem o desenvolvimento. A educação é um desses pilares e, como tal, tem grande responsabilidade na formação de seres humanos críticos, reflexivos, criativos, empreendedores, empenhados na melhoria da qualidade de vida, capazes de comunicar, possuidores de identidade para a sua ação efetiva na sociedade. As políticas que estabelece estão intimamente ligadas a acordos internacionais, fruto de revisão e reflexão conjunta, como as acordadas em 2015, quando os Estados que compõem as Nações Unidas aprovaram 17 objetivos no âmbito da Agenda 2030 e entre eles propuseram em quarto lugar a Educação de Qualidade e como quinto, Igualdade de Gênero. Objetivos em pauta, tornados visíveis na CNEB, por meio de seus enfoques transversais (enfoque de Igualdade e Direitos de Gênero, principalmente) que devem não só nortear o trabalho pedagógico, mas também se materializar por meio de atividades mobilizadoras, reflexões conjuntas e ações que reflitam modelos daquela sociedade que todos nós esperamos. Nesse sentido, de que forma a literatura infantil contribui durante a infância?

Para Teresa Colomer (2010), a literatura infantil tem três funções principais:

  • Percorrer o caminho do imaginário compartilhado por uma determinada sociedade.
  • Incentivar o domínio da linguagem por meio de textos que contenham formas narrativas, poéticas e dramáticas.
  • Proporcionar uma representação de mundo que sirva de instrumento de socialização para as novas gerações.

Colocar-se nas funções declaradas pelo pesquisador é reconhecer o valor educativo da literatura; bem como a inclusão social e cultural. Como o gênero possui um caráter social marcante, é fundamental garantir vivências na infância. As práticas de socialização desde o nascimento constroem e reforçam a identidade de gênero que lhes permite reconhecer-se e aos outros, pois são o resultado da internalização de um conjunto de normas sociais que orientam o comportamento, colocando-o em extremos: bom ou mau. Nesta perspectiva, a educação e “o nível”, “a qualidade” das interações que se geram, bem como os modelos predominantes que mostram os papéis que homens e mulheres devem cumprir na sociedade passam a ser a base para a geração de nossos esquemas de gênero… Lembremos que as mudanças mais significativas no desenvolvimento do conhecimento de gênero ocorrem da infância à adolescência. Assim, a partir dos três anos, as crianças expressam o conhecimento do próprio gênero por meio de ações e ideias. Anos depois, “esboçam” comportamentos e, na adolescência, assumem padrões de comportamento baseados em valores (Yubero e Larrañaga, 2013).

“Como o gênero possui um caráter social marcante, é fundamental garantir vivências na infância”

Não há dúvida de que a literatura infanto-juvenil se tornou, nas últimas décadas, devido à sua incorporação, por meio de planos de leitura, uma ferramenta de formação nas escolas de todo o país e, como tal, uma referência, transmissora de valores e padrões culturais. Grande responsabilidade atribuída a um livro e seu mediador.

Quando nos aproximamos do CNEB, descobrimos que ele contempla os propósitos da educação peruana, contém, entre outros elementos, abordagens transversais, as competências que se espera que as crianças e os/as jovens desenvolvam. A tabela a seguir mostra as habilidades mais vinculantes dos níveis inicial e primário que podem ser adquiridas com a leitura das crianças.

Como se pode verificar, a narração de histórias e a poesia infantil é transversal a muitas aprendizagens. Além de ser um motivo para adquirir gosto à leitura, desenvolver a compreensão e assim adquirir muitos mais aprendizados, torna-se um reflexo da sociedade, muitas vezes mostra “fotos”, papéis de homens e mulheres e que se espera que as crianças reproduzam. O problema surge quando os textos escolhidos apresentam personagens estereotipados, preconceituosos e marginalizados para um sexo, o que é reforçado pelos temas levantados, pelas ilustrações (tipo, quantidade) e pela linguagem utilizada.

Ao realizarmos um levantamento de informações e respectiva análise dos livros de literatura infantil que atualmente são mais divulgados através dos planos de leitura, podemos verificar que aproximadamente 80% deles trazem títulos que levam em consideração nomes masculinos, sejam eles pessoas ou animais. Esses personagens são os protagonistas e apresentam caracterizações que vão desde valente, trabalhador, intrépido, investigador, líder, travesso e uma pequena porcentagem deles poderia constituir o chamado anti-herói, mas ao final das lições recebidas permitem a ele repensar sua maneira de agir (retornar à pista) e, assim, deixar seu ensino, reforçando formas ideais de comportamento. Poder-se-ia destacar, da mesma forma, que os personagens secundários também nessas histórias são em sua maioria do sexo masculino, muitos deles adultos, que são pais, têm uma profissão ou ocupação que lhes permite ser o ganha-pão; ou seja, em atividades fora de casa. As imagens que fazem parte do livro; consequentemente, giram em torno do personagem principal e de alguns personagens como aquele pai que, embora esteja em casa, usa gravata e camisa. Em relação à linguagem, há uma década o uso do coloquialismo e dos termos “da moda” tem sido visto com maior incidência, sendo este último mais frequente na literatura juvenil.

“O problema surge quando os textos escolhidos apresentam personagens estereotipados, preconceituosos e que marginalizam um sexo, o que é reforçado pelos temas levantados, pelas ilustrações (tipo, quantidade) e pela linguagem utilizada”

Temos 20% identificado na literatura infantil que tem uma personagem feminina como protagonista, bem como a personificação de animais e objetos desse sexo. Uma pequena porcentagem dessas publicações ainda aposta no mundo da fantasia com fadas que resgatam a protagonista ingênua e indefesa. Há uma sorte recorrente de protagonistas medrosas, submissas, envolvidas com o trabalho do estudo e do lar (seguro para muitas) que passam por muitas aventuras, entre tratamentos abusivos, mal-entendidos, descobertas, como meio de aprendizagem. Outro grupo de textos apresenta uma protagonista temerária, astuta e independente (qualidades geralmente atribuídas ao gênero oposto), que se mete em mil problemas por ser assim. Esses textos geralmente têm como base objetiva revelar comportamentos sociais que não favorecem a igualdade e, portanto, levam à reflexão até a formação. A protagonista sai das saias para se apresentar em roupas mais leves que usa com roupas casuais de destaque, muitas vezes sem procurar, de forma grotesca, através das imagens. O texto pode ter um propósito, mas as imagens não o reforçam, às vezes, possuem uma carga de estereótipo sexista que pode ser atribuída a ele. Nota-se que há um esforço para eliminar as lacunas geradas por uma tradição social com tratamento desigual. Porém, devemos atentar para essa linha imaginária que sustenta a trama e com ela o que a criança pode extrair, por meio de sua leitura. Precisamos lembrar que a carga de formação é significativa.

Não há dúvida de que existem esforços para eliminar certos papéis e comportamentos estereotipados, que se refletem nos novos temas, enredos, caracterização de personagens e ilustrações de contos e poesias infantis. Alguns mais bem-sucedidos do que outros. Porém, o que é oferecido no mercado editorial é insuficiente para o que já está instalado. Lembremos que os papéis atribuídos às personagens influenciam o mundo afetivo e social das crianças, que merecem ter acesso a obras que lhes permitam elevar a criatividade e o lúdico, mas principalmente, por meio do ato comunicativo de socializar a partir da abordagem de diversos contextos e ações com uma carga tão humana, pela atuação de seus personagens. Os livros infantis também são um repositório do que prevalece na sociedade. Cuidemos dessa sociedade, cuidemos do conteúdo dos livros.

Milagritos Huertas Quezada

Bibliografia
Colomer, T. (2010). Introducción a la literatura infantil y juvenil actual. Madrid: Síntesis.
Gaitán Castro, A. L., & Mosquera Collazos, J. (2016). Estado de las investigaciones sobre la relación entre la literatura infantil y el proceso docente-educativo. Actualidades Pedagógicas, (67), 135–172. https://doi.org/10.19052/ap.3210
MINEDU, (2016). Currículo Nacional de la Educación Básica. Lima, Perú
Yubero, S. y Larrañaga, E. (2013). Educar actitudes para la convivencia de género. Propuesta psicoeducativa desde la competencia lectora. Proyecto ¿Somos princesas? En J.J. Gázquez, M. C. Pérez-Fuentes y M. M. Molero (Comps.), La convivencia escolar: Un acercamiento multidisciplinar (pp. 287-292). Almería: Asunivep.

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